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A editora nasceu com a publicação do livro O subterrâneo do morro do Castelo de Barreto. Antes disso, a Dantes nasceu durante a descoberta deste texto nos microfilmes das páginas do Correio da Manhã, quer dizer nasceu na sala de leitura de periódicos da Biblioteca Nacional.
E como tudo que nasce vem da vida, a Dantes veio d’A vida de Lima Barreto, especificamente de um parágrafo em que o biografo menciona a existência de um texto do Lima sobre um tesouro escondido no Rio de Janeiro. Um tesouro! E claro fomos procurá-lo. Um tesouro no subterrâneo de um morro, por baixo de algo que está acima. E ainda um castelo sobre este morro. Foi assim que subimos para baixo e descemos para cima. Um subterrâneo-sótão como diz Cesar Burgos, nosso parceiro de trabalho de textos há quase 20 anos.
Castelo
Morro
Subterrâneo
O fato é que, impresso em páginas de livro pela primeira vez, o livro de Lima Barreto nos fez editora. Nossas madrinhas foram Beatriz Resende e Raquel Valença professoras que descortinaram essa obra seminal. Nasceu a editora e também a primeira edição de um livro com 92 anos de idade, cativo nas páginas de um jornal e em folhas de manuscritos sob a guarda da Biblioteca. A elas nossa total gratidão: a Raquel, a Beatriz e às folhas.
O subterrâneo do morro do Castelo narra os acontecimentos passados no princípio do arrasamento do local onde a cidade do Rio de Janeiro se instalou para crescer.
A demolição de um lugar que se torna indesejado pelo poder público, provocando a remoção de seus habitantes, é um fato recorrente nas grandes cidades. No Rio de Janeiro, quando impulsionados pelo desejo de tornar a cidade cartão postal para estrangeiros, ou em momentos que antecedem grandes eventos internacionais, como recentemente a Copa do Mundo e as Olimpíadas, as áreas mais pobres economicamente são extirpadas pelo próprio poder público que as abandona. Os planos socioambientais muitas vezes buscam a maquiagem em detrimento a estruturação da base. Portanto, não é a toa que o projeto de Pereira Passos se chamava “embelezamento e saneamento da cidade”.
Quando iniciaram as primeiras escavações do morro do Castelo para a abertura da Avenida Central, em 1905, e a cidade se preparava para a Terceira Conferência Panamericana em 1906, outro desmonte acontecia nos Estados Unidos da América: o do palácio Monroe que havia sido o Pavilhão Brasileiro na Exposição Universal de 1904 em St. Louis. Condecorado com medalha de ouro no Grande Prêmio Mundial de Arquitetura, o palácio teve sua estrutura transportada para o Brasil e remontada na praça Floriano Peixoto, atual Cinelândia, aos pés do antigo morro. Também em 1904 houve a Revolta da Vacina, manifestações populares em reação a imposição violenta e autoritária para vacinação da população contra varíola.
O subterrâneo do morro do Castelo é uma espécie de estratégia de sobrevivência da memória, que honra as pessoas que foram removidas de lá e fundaram as primeiras favelas da cidade em prol da tal ordem e progresso que estigmatizam os projetos civilizatórios ocidentais. O mergulho nas entranhas da nossa cultura é o que impulsiona a editora. A abertura de canais para que a voz que brota dessa terra ecoe e se propague no céu, o mesmo céu atemporal descrito a partir do observatório instalado no topo do morro do Castelo.
Céu
Castelo
Morro
Subterrâneo
Foi assim, que lendo mais uma vez as páginas do Correio da Manhã, nos deparamos com as notícias meteorológicas. Na época ainda não eram previsões e sim descrições do clima do dia anterior. Nesta nova edição, imaginando que Lima Barreto poderia ser o repórter que colhia as informações no Observatório enquanto fazia a cobertura sobre as obras no local, incluímos as curiosas notas sobre o Tempo publicadas diariamente, corrigindo apenas a data para que figurem no próprio dia descrito e não no posterior.
Viajamos um pouco além, na pesquisa de trechos na obra de Lima Barreto em que personagens ou narrador descrevem o céu. O céu visto por Lima Barreto. Pedacinho do céu, esse pequeno livrinho que lançamos agora ao mesmo tempo que O subterrâneo do morro do Castelo. São tiragens especiais e comemorativas. Cento e cinquenta exemplares de Pedacinho e trezentos de O subterrâneo.
A capa de O subterrâneo do morro do Castelo é uma reprodução da obra de Guga Ferraz, com tipologia especialmente manuscrita por ele para essa edição.
A capa de Pedacinho do céu foi feita sobre uma foto de Bia Saldanha.
Estão abertas nossas festas de 20 anos de editora. Viva!

Aqui uma reportagem que descreve bem as acões do poder público diante das remoções. Será que foi escrita por Lima Barreto?