Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva do povo Huni Kuin do rio Jordão é o projeto dos pajés Huni Kuin de transmissão e fortalecimento de sua cultura. Seu coordenador é o pajé Dua Buse que vive na aldeia Coração da Floresta, próxima a fronteira com o Peru. É um projeto que envolve as 3 mil pessoas das 36 aldeias nos rios Jordão e Tarauacá e se estendeu ao conhecimento de todo povo das outras terras indígenas Huni Kuin do Acre, buscando alcançar aproximadamente 13 mil pessoas.

   Quando Agostinho Manduca Mateus Ika Muru Inu Bake visitou os Ashaninka do rio Amônia, em 1988, ainda não era o emblemático pajé que norteia mesmo depois de sua morte as ações de abertura cultural dos Huni Kuin. Havia percorrido grande parte das terras do Acre fronteiriças ao Peru empenhado na demarcação do território de seu povo e participado ativamente das lutas para libertação do modelo extrativista da seringa que favorecia o enriquecimento de patrões e proibia atividades culturais indígenas.

   A trajetória de Agostinho lhe valeu experiência para firmar-se visionário.
   Os Huni Kuin, gente verdadeira, como se autodenominam, eram mais conhecidos como Kaxinawa, povo morcego, forma pela qual outros povos os chamavam, mas que adotaram como própria por longo período até alcançarem a paz necessária para reativarem sua cultura tradicional.
   A história Huni Kuin é dividida em cinco tempos: o das malocas, em que viviam nus antes do contato com os brancos, o tempo da correria, sobrepujados pelas armas de fogo e dominação do território quando foram reduzidos a pouco mais de 300 pessoas, o tempo do cativeiro, reféns dos seringalistas que implementaram o sistema escravagista dos barracões, sob o qual nasceram Agostinho e todos Huni Kuin hoje mais velhos. O tempo dos direitos, a partir da década de setenta, contou com as formulações dos antropólogos Terri de Aquino e Marcelo Piedrafita na constituição das cooperativas e na delimitação dos territórios. Hoje vivem o xina bena, novo tempo, que alia a transmissão das tradições entre velhos e jovens a intercâmbios com o mundo do século XXI.



   A cultura é nossa maior proteção foi o ensinamento recebido por Agostinho na aldeia Ashaninka durante um ritual de ayahuasca, medicina de uso tradicional de muitos povos nativos ameríndios, entre eles os Huni Kuin. A cultura fortalecida expande fronteiras, forja um novo estado de espírito pulsante, epicêntrico, mais potente que a desgastante resistência sempre contaminada pelo opressor.  A partir desse momento mergulhou por mais de vinte anos no estudo da ancestralidade, buscou cantos, mitos, conhecimentos de plantas, tratamentos e a própria cosmovisão. Junto a outros pajés, elaborou um projeto chamado de “Una  Hiwea – Livro Vivo” que previa a construção coletiva de um livro para criar a oportunidade da troca de saberes. O encontro e o propósito comum ativaria o trabalho nos parques e consequentemente o uso da própria medicina em benefício do povo. O livro torna-se, assim, uma nova ferramenta de atualização da tradição oral. Ele é vivo pois não deixa o conhecimento morrer, mais do que isso o ramifica, enlaça novos sentidos, cria raízes e dissemina sementes.
   Do Rio de Janeiro eu não imaginava a existência de um projeto editorial tão original e relevante no meio da Amazônia acreana.  Há mais de vinte anos tenho uma editora voltada para edições ligadas a memória, pesquisas, processos colaborativos  e, especialmente desde 2009, ao conhecimento da natureza. Projetos sobre naturalistas do século XVIII no Brasil, jardins sinuosos do século XIX e o paisagismo de Burle Marx trilharam o caminho que me conduziram em 2011 às aldeias Huni Kuin pela primeira vez à convite do Jardim Botânico do Rio Janeiro.
   Em setembro de 2011 fomos ao encontro do pajé Agostinho em sua aldeia. Chegamos a noite depois de dois dias de viagem. Fomos em pequena equipe formada por mim, Alexandre Quinet, taxonomista do Jardim Botânico e por Carlos, um rapaz do Juruá que ficaria na aldeia por três meses para ajudar a construir a maloca em que se realizaria a oficina no mês de dezembro que reuniria todos os pajés das aldeias dos rios Jordão e Tarauacá. Durante este encontro Agostinho viu que faríamos o que ele chamou de livro-mãe e que poderíamos abrir as imagens e conhecimentos sobre as plantas.
   Na oficina em dezembro foram registradas e coletadas a maior parte das informações para o livro, além de definido seu título: Una Isi Kayawa. O pajé Agostinho, que nos orientou para que a edição se tornasse um documento de proteção e de estudo de seu povo, faleceu poucos dias após o evento, elevando todo o projeto a uma categoria de muito mais responsabilidade.

   ”Una Isi Kayawa – Livro da cura” tornou-se um livro pioneiro que reúne conhecimento tradicional e ciência através do profundo conhecimento das plantas e das práticas medicinais do povo Huni Kuin. Sua concepção e idealização fazem parte de um longo processo de pesquisa, encontros, conversas, cerimônias e relatos. Um projeto tão desafiador quanto gratificante, que envolveu dois anos e meio de trabalho ininterrupto: cinco viagens ao Rio Jordão e quatro residências de tradutores indígenas no Rio de Janeiro.
   O livro foi cercado de cuidados, tanto na pesquisa quanto na produção. Um exemplo é a fonte hunikuin, criada durante a oficina especialmente para o projeto, a partir das letras manuscritas dos cadernos de pesquisas dos pajés e aprendizes.
   A primeira tiragem de mil exemplares foi produzida em papel plástico de garrafas pet para sobreviver à umidade da floresta. Em maio de 2014 esses exemplares foram distribuídos entre pajés e aprendizes do rio Jordão, em uma grande festa, e também para lideranças e pajés das 32 aldeias da região ao longo do rio. A partir de uma votação entre os Huni Kuin, foi decidido que o livro poderia ser distribuído também fora da aldeia indígena.    O lançamento foi no Parque Lage no Rio de Janeiro, onde  construímos uma maloca tradicional, que até hoje acolhe eventos indígenas e de outras naturezas afins. O evento de lançamento contou com a presença de uma comitiva de quinze pajés. Foram realizados também lançamentos em diversas capitais brasileiras e o livro ganhou o prêmio Jabuti de Ciência da Natureza em 2015.
   ”Una Isi Kayawa – Livro da cura” foi também ponte que levou o artista plástico Ernesto Neto ao contato com os Huni Kuin. Ele aceitou nosso convite para uma viagem de revisão do primeiro protótipo da edição. Percorremos diversas aldeias para apresentar o livro e confirmar as informações junto a seus autores indígenas. Desde então Neto realizou exposições em parceria com os Huni Kuin em diversos museus de arte contemporânea no mundo: Guggenheim Bilbao, Austria, Alemanha, Dinamarca, Finlândia… uma parceria que trabalha em favor do encontro do conhecimento tradicional com a cultura ocidental.


   Em 2014 na intenção da continuidade do projeto, entregamos com o apoio do Rumos Itaú Cultura, cadernos para os pajés de todas as aldeias dos rios Jordão e Tarauacá. A ideia inicial era que servissem de base para um novo livro com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, no entanto, quando devolvidos para registro, os cadernos revelaram a potência do trabalho de pesquisa realizado pelos próprios pajés. Instruídos pelo pajé Dua Buse, que rebatizou o projeto como Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva trabalhamos integralmente a partir da pesquisa Huni Kuin, colaborando para a realização de um livro de 400 páginas impresso em papel pet (para sobreviver a umidade da floresta), um filme e uma grande exposição no Itaú Cultural, além de uma escola viva construída na aldeia do pajé Dua Buse para favorecer encontros de aprendizagem.
   Cada caderno revela uma linha de criação e editorial própria. Além de servir como relatório do trabalho, de registro e representação do seu conhecimento, os cadernos motivam o uso de tratamentos tradicionais de cura e a organização dos parques de medicina, onde de fato o Livro Escola Viva é escrito.
   Una Isi Kayawa – Livro da cura já foi traduzido para o inglês e será publicado em outras países.
   Entre 2015 e 2017 preparamos em parceria com o Itaú Cultural a exposição UNA SHUBU HIWEA com filmes, construção de escola na aldeia de Dua Buse e outras iniciativas importantes.
   O conjunto de todas essas ações, e o interesse mundial que tem provocado, confirmam a visão do pajé Agostinho que, diante de um mundo abalado por ações destrutivas humanas, devemos trabalhar em aliança com o reino vegetal, responsável pela vida no planeta do ar ao alimento. Aí está nossa cura e proteção. (Anna Dantes).

EQUIPE UNA SHUBU HIWEA:
Organizador: pajé Dua Buse – Manuel Vandique Kaxinawá
Autores: Ademar Domingos Rodrigues Shane Huni (aldeia Altamira), Edinaldo Macário Maná (aldeia Novo Natal), Eliberto Sena Tene (aldeia Coração da Floresta), Fernando Barbosa Siã (aldeia Três Fazendas), Francisco Célio Keã (aldeia Bom Jesus), Francisco Chagas Yube (aldeia Pão Sagrado), Francisco Chagas Maia Nixiwaka (aldeia Nova Cachoeira), Francisco de Assis Buretami Dua Busê (aldeia Verde Floresta), Francisco Arnaldo Macário Keã (aldeia Nova Aliança), Francisco Sabino Buretama Macari (aldeia Sacado), Francisco Sena Kaxinawá Isamema (aldeia Flor da Floresta), Gilberto Marcelino Keã (aldeia Nova Mina), Gilmar Sereno Sales Txana Kupi (aldeia Canafista), Ibã Sales (aldeia Xico Curumin), Irã Pinheiro Sales Yawa Bane (aldeia Altamira), José Domingos Itsairu (aldeia Belomonte), José Mateus Itsairu (aldeia São Joaquim atual aldeia Mae Bena), José Melo Macário Bane (aldeia Mae Bena), José Paulino Sales Txana Ika Kuru (aldeia Boa Vista), Josenildo Sales Siã (aldeia Bom Futuro), Lauro Sales Yasã (aldeia Bari), Lusivaldo Alfredo Melo Maná (aldeia Paz do Senhor), Manuel Dua Busê (aldeia Novo Segredo), Manuel Vandique Kaxinawá Dua Buse (aldeia Coração da Floresta), com Aldo Sena da Silva Shaemetü, Antonio Maia Kaxinawá Shaemetü, José Maia Kaxinawá Yube, Maná Dua BakeMardilson Sales (aldeia Nova Fortealeza), Miguel Sales Siã (aldeia Xico Curumin), Norberto Sales Tenë (aldeia Flor da Mata) com Antonio Kaxinawá Txana Makari, Bari Bai, Célio B. da Silva KaxinawaIbã Huni Kuin Dua Bake, Isailson, José Antônio Domingos, Lex Forker Uri, Mana, Paetani Huni Kuï, Txana Masheini Maria Aparecida Sales, Txana Runy, Yawarika Huni Kuï e Zerzulino Makario, Osmar Keã (aldeia Altamira) Raimundo Abdias Kupi (aldeia Canafista), Ronaldo Damião Keã (aldeia Morada Nova) Sávio Barbosa Txana Kisti (aldeia Três Fazendas), Tiago Sales Ibã (aldeia Novo Natal) Toni Sales Txanu (aldeia Bela Vista)
Coordenação:  Anna Dantes
Tradutores do Hatxa Kuin: José Mateus Itsairu, Isaka Oswaldo Mateus, Ibã Sales, Tadeu Mateus Huni Kui Sia Txana Hui Bai
Fotografia: Camilla Coutinho

EXPOSIÇÃO
Direção Criativa: Anna Dantes e Ernesto Neto
Montagem da exposição: Menegildo Paulino KaxinawáJosé Mateus ItsairuRita Pinheiro Sales KaxinawáEdilene Pinheiro Sales KaxinawáJociclei Pinheiro Sales
Assistentes de Design: Gabriel Takashi e João Manuel Tui
Produção: Ana Carolina Trebisch
Fotografia e vídeo: Camilla Coutinho Silva
Paisagem Sonora e Áudios: Yan Saldanha

PARCERIAS
Una Isi Kayawa – Livro da Cura – Dantes Editora e  Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva – Dantes Editora e  Itaú Cultural