CICLO DE LEITURA : REGENERANTES DE GAIA

Com o adiamento do nosso ciclo de leitura que aconteceria no Rio de Janeiro, nos ocorreu que seria oportuno compartilhar todos com vocês links gratuitos para vários dos filmes que são abordados no livro “Regenerantes de Gaia”. No nosso planejamento original, cenas curtas de vários desses filmes serão projetadas nos debates presenciais. Daí julgamos que, até como forma de aproveitar bem esses tempos de recolhimento, seria enriquecedor se vocês pudessem ter tido acesso à versão integral de alguns dos filmes.
Infelizmente, alguns filmes importantes para a discussão, nós não encontramos versões gratuitas na nossa busca, como alguns de Cronenberg (Scanners, Videodrome, eXistenZ), Hawks (Monstro do Ártico), Herzog (Lições da Escuridão), Nolan (Interestelar), Tarkovski (O Espelho, Solaris), Von Trier (Melancolia, A Casa que Jack Construiu), Wilcox (O Planeta Proibido). Para quem tiver interesse, existem versões em DVD produzidas no Brasil para todos esses.

O HOMEM-URSO (WERNER HERZOG, 2005)
[cap. 3, Natureza Indiferente]
https://www.dailymotion.com/video/x1puv2g (parte 1) (ing., leg. port)
https://www.dailymotion.com/video/x1q5vlb (parte 2) (ing., leg. port)
Documentário que entremeia filmagem em vídeo feita pelo falecido ativista em defesa dos ursos, Timothy Treadwell (1957-2003), com entrevistas com pessoas relacionadas ao ativista e comentários e análises do próprio Herzog. As filmagens de Treadwell se deram ao longo dos últimos 13 verões de sua vida, os quais passou em um parque nacional do Alaska convivendo, na maior parte do tempo sozinho, com os ursos e outros elementos da natureza. Tragicamente, e ironicamente, Treadwell e sua namorada Amie Huguenard, morreram atacados por um urso às vésperas de sua partida do Parque, em 2003.
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A Natureza no cinema de Herzog é como a de Platão, ou seja, é tudo aquilo sobre o que não se tem controle. E em sua obra, ainda que em várias ocasiões a Natureza seja um dos protagonistas, seu principal interesse parece ser o da natureza humana quando confrontada zcom a Natureza não-humana. Ele admite ser esse o caso, em uma das. Não estamos fazendo a coisa certa com o planeta.”

CORAÇÃO DE CRISTAL (WERNER HERZOG , 1976)
[cap. 3, Natureza Indiferente]
https://www.youtube.com/watch?v=cIpr2kPXo78 (alem., leg. port)
O alquimista Demócrito dizia que “a natureza se alegra com a natureza, a natureza abraça a natureza, a natureza vence a natureza”. Essa ambivalência da beleza perigosa está presente em parte significativa da obra de Herzog. Entretanto, a perspectiva de Gaia em seu cinema, especialmente da capacidade de autorregeneração sobre a qual Platão já falava, talvez esteja mais explícita numa passagem de “Coração de Cristal”. Com imagens de montanhas nebulosas, água em grandes volumes, e a trilha sonora de Popol Vuh, o narrador dizia:
“Olho para longe. Até o fim do mundo. A cada dia o fim se aproxima mais. Primeiro o tempo é engolido. Depois a terra. As nuvens se movem velozmente. Então a terra começa a ferver. É chegada a hora. É o começo do fim. Os confins do mundo começam a ruir, tudo rui e cai. Olho no fundo da queda. Me sinto atraído. Algo me atrai, me puxa pra baixo. Eu começo a cair. Caio e me sinto tonto. Agora vejo exatamente a água que cai. Procuro um ponto para fixar meu olhar. Me sinto leve. Cada vez mais leve. Tudo é leve e eu saio voando. Então, através da queda, uma nova terra emerge. Depois que tudo foi engolido, a terra emerge da água. Vejo uma nova terra”.

 AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES (WERNER HERZOG, 1972)
[cap. 3, Natureza Indiferente]
https://www.youtube.com/watch?v=weuYp-XFxAo (alem., leg. port.)
FITZCARRALDO (WERNER HERZOG, 1979)
[cap. 3, Natureza Indiferente]
https://www.dailymotion.com/video/x6uabjq  (inglês, sem legenda)
Herzog afirma que os denominadores comuns da natureza são o caos, a hostilidade e o assassinato. Em diversas entrevistas, ele diz “não haver harmonia na mãe natureza”50 ou que o “Universo não é harmonioso, nem bonito, é perigoso e hostil”51, ou ainda que o “Universo não dá a mínima pra gente”52. Essa hostilidade ou indiferença da natureza para com o ser humano está clara também em algumas das suas obras de ficção, como ‘Aguirre, a Cólera dos Deuses’53 e “Fitzcarraldo”54, nas quais os protagonistas são derrotados pela floresta amazônica e seus rios.

LA SOUFRIÈRE (WERNER HERZOG, 1977)
[cap. 6, Natureza e Melancolia]
https://www.youtube.com/watch?v=EVVAGmlgDxI (ing., leg. ing.)
Documentário sobre a iminente erupção do vulcão La Soufrière na ilha caribenha de Guadalupe que, ao fim, não viria a acontecer. Ainda que se tenha evacuado a população da vila que mais sofreria o impacto da erupção, alguns poucos habitantes permaneceram, alegando não temer a morte.

INTO THE INFERNO (WERNER HERZOG, 2016)
[cap. 6, Natureza e Melancolia]
Netflix (ing., leg. Port)

INFERNO (DARIO ARGENTO, 1980)
[cap. 6, Natureza e Melancolia]
https://www.youtube.com/watch?v=xPvs6fW2Ogw (inglês, sem legenda)
‘Inferno’ de Argento parece um sistema orgânico, o ser humano ou o planeta, em crise. Se a casa for o planeta, ou Gaia, as mutilações dos corpos seriam feridas planetárias, como o desmatamento. As mortes violentas de pessoas são análogas à brutalidade das extinções de espécies e seres sencientes.

NOSTALGIA (ANDREI TARKOVSKI, 1983)
[cap. 9, A Cura]
https://www.youtube.com/watch?v=-gH1cprEg0w&list=PL4Cm-RPTiJkNkQ6Q07XCvXJ2jJr-aGpgI&index=5&t=0s (russo, italiano, leg port)
O reconhecimento do mal espiritual moderno e a cura pela redenção e pelo sacrifício são temas constantes na obra cinematográfica do cineasta russo Andrei Tarkovski. Sem dúvida, as referências de Tarkovski a uma consciência planetária (em ‘Solaris’) e à necessidade de os seres humanos se “darem as mãos” (em ‘Nostalgia’) e se integrarem à natureza (em praticamente todos os seus filmes) aludem ao pensamento de seu conterrâneo, o cientista geoquímico Vladimir Vernadsky – no tratamento que dava à biosfera e à noosfera – assim como à própria teoria de Gaia de Lovelock e Margulis.

O SACRIFÍCIO (ANDREI TARKOVSKI, 1986)
[cap. 9, A Cura]
https://www.youtube.com/watch?v=UYOXUy9017U (sueco, leg port)
Em ‘Sacrifício’, Alexander – também interpretado pelo mesmo Erland Josephson de Domenico – oferece em prece sua casa de campo em troca da não eclosão de uma guerra atômica. Uma vez que a guerra não acontece, ele queima sua casa e em seguida é levado para um sanatório.

ANDREI RUBLEV (ANDREI TARKOVSKI, 1966)
[cap. 9, A Cura]
https://www.youtube.com/watch?v=VkCeEYuMyOY (russo, leg port)

A INFÂNCIA DE IVAN (ANDREI TARKOVSKI, 1961)
[cap. 9, A Cura]
https://www.youtube.com/watch?v=p5VIoKSGs44 (russo, leg esp)
Além de expressar a integração dos seres humanos uns com os outros e com a natureza por meio da voz de seus personagens, Tarkovski induz essa sensação no espectador através de imagens e sons. Em seus filmes, as construções e paisagens humanas parecem estar sendo lentamente retomadas pela natureza, como nos chama a atenção Slavoj Žižek. Casas (‘O Espelho’, ‘Sacrifício’), igrejas (‘Andrei Rublev’, ‘Nostalgia’), cidades inteiras (‘Stalker’) sempre têm poças d’água ao chão, plantas agarradas a paredes, e mesmo cães, pássaros e cavalos que aparecem inesperadamente. Humanos se deitam sobre a relva (em ‘A Infância de Ivan’ ou ‘O Espelho’), ou até entre poças d’água (em ‘Stalker’), por vezes acompanhados de cães. Chuvas torrenciais, incêndios e lareiras, vento, solo e lama, continuamente nos remetem aos elementos água, fogo, ar e terra.

STALKER (ANDREI TARKOVSKI, 1979)
[cap. 9, A Cura]
https://www.youtube.com/watch?v=TGRDYpCmMcM (russo, leg em vários idiomas, ing, esp, mas não tem em port)
Em ‘Stalker’, Tarkovski trata da natureza interior que desconhecemos. Na estória, o personagem principal, Stalker (o guia), conduz um cientista e um escritor a uma região, a “Zona”, onde restos de uma visita extraterrestre criaram um estado local sobrenatural e que desafia a ciência. O Stalker informa aos seus guiados que, na Zona, pessoas já teriam desaparecido, nada é o que parece e tudo se transforma. A Zona contém uma ‘Sala’ e também nos é informado que quem ingressa ali tem seus desejos mais íntimos realizados. Após vários obstáculos, o trio chega à Sala, mas nenhum deles entra na mesma, por temerem desconhecer seus desejos mais íntimos.

 FRANCISCO, ARAUTO DE DEUS (ROBERTO ROSSELLINI, 1950)
[cap. 12, Pós-Sacrifício]
https://www.youtube.com/watch?v=kiOV41F1Utw (italiano, leg port)
Roberto Rossellini retrata episódios da vida de São Francisco de Assis e seus seguidores. O sacrifício está no voto de pobreza, que expõe os franciscanos a uma vida simples, exposta às intempéries da natureza, mas também às suas dádivas. Fogo, água, animais, plantas, outros seres humanos – são todos percebidos como aliados.

DEEP RED (DARIO ARGENTO, 1976)
[cap. 15, Seres Inconscientes, Planetas Conscientes]
https://www.dailymotion.com/video/x6nen5h para quem não for muito interessado em cinema de horror, da abertura até 10 minutos do filme já cobre do que tratamos no livro (inglês, legenda espanhol)
Em ‘Deep Red’, num Congresso de Parapsicologia, e em ‘Scanners’, em uma conferência corporativa, vemos no palco dos eventos personagens com poderes telepáticos. Helga Ulmann, a telepata do filme de Argento, nos explica que telepatia não tem a ver com mágica, esoterismo ou previsão de futuro, mas sim com a capacidade de “sentir pensamentos no momento em que são formados”.

EIS OS DELÍRIOS DO MUNDO CONECTADO (WERNER HERZOG, 2016)
[cap. 15, Seres Inconscientes, Planetas Conscientes]
No Netflix com leg port ou em https://vimeo.com/198891818 Lo and behold (ing, sem leg.)
A telepatia, independentemente de ser associada ao ocultismo ou à ciência e à psicanálise, é uma metáfora para a ausência de barreiras ou fronteiras para o pensamento e para o espírito. O corpo não teria a capacidade de impor limites à mente e ao espírito. Assim, em uma humanidade despreparada, essa habilidade seria também uma maldição, que leva a mente ou o espírito a perceber ou escutar todas as dores do mundo. Nesse ponto, é inevitável um paralelo com a internet. Enquanto seu potencial de conectar é imensamente positivo – no que pode ser percebida como um veículo tecnológico da telepatia por sua velocidade e ausência de limites ao acesso –, quando mal usada expõe o usuário às dores e aos males do mundo, conforme trata o documentário ‘Eis os Delírios do Mundo Conectado’, de Werner Herzog. Não surpreendem, portanto, as referências médicas à telepatia como loucura ou um tipo de esquizofrenia.

CRASH (DAVID CRONENBERG, 1996)
[cap. 17, Pós-Apocalipse e Tecnofuturos]
https://vimeo.com/groups/565877/videos/257431722 (ing., sem leg.)
Em ‘Crash’ – uma adaptação para o cinema do livro de J.G. Ballard, que seria seu quinto301 após ‘O Quarteto dos Elementos’ – as transformações no corpo se manifestam por cicatrizes e mutilações resultantes de colisões de automóveis, em geral propositais, como se os personagens buscassem se fundir com essas máquinas.

BLAISE PASCAL (ROBERTO ROSSELLINI, 1972)
[cap. 18, Renascimento e Transcendência]
https://www.youtube.com/watch?v=_Tb7_Cf6mKw (francês, leg. port)
Já a visão de Blaise Pascal, que embora fosse cientista e geômetra tinha restrições à “finitude” do pensamento científico de Descartes durante o Iluminismo, também se distingue da corrente pós-moderna. Conforme retratado em filme de Roberto Rossellini, Pascal teria proposto a seguinte reflexão, para uma roda de jogadores, sobre que “aposta” fazer perante a vida: “Não é satisfatório apostar no fim de tudo, nem pela razão, nem pelo coração. Por quê? Porque se apostar no que é finito e limitado, mesmo vencendo, não ganhará nada e, perdendo, perderá tudo. Se, ao contrário, apostar no infinito, vencendo, ganha-se tudo, e perdendo, não se perde nada.”

 

RIO 2020

De muito o que aqui mudou, o céu é variante que não acaba.
Para quem quiser passear pelo céu visto por Lima Barreto e descrito em seus livros.
Aqui vai uma janela, convite ao embarque ou respiro.
A foto é da Bia Saldanha.